A poesia cotidiana do novo jornalismo e o leitor exigente têm espaço em caderno cultural
“O vinho é um aprendizado intelectual, cultural, sensual, mas também um exercício de curiosidade, liberdade e paixão (…). A degustação é uma longa partida de xadrez com combinações infinitas. A variedade da uva, a safra, o produtor, a região… Ao lado da culinária, a descoberta de novas combinações não termina nunca. Minhas ‘gavetas’ interiores se abriram de acordo com os humores do prato ou da personalidade de quem bebia. Eu gosto de capturar o vôo do desejo do outro. Mesmo se acontece às vezes de me enganar…”. (Enrico Bernardo, considerado o melhor sommelier do mundo).
A Gazeta do Paraná, jornal produzido em Cascavel e de circulação estadual, abriu espaço único na região para discutir e promover cultura por meio do jornalismo literário: o caderno dominical Gazeta ALT.
O Gazeta ALT quer atender aos anseios daqueles que apreciam um bom texto, que se deixam levar por uma boa história. É a cultura de degustar a própria cultura em doses minuciosas, como um bom copo de vinho fino. ALT representa a fuga das “estruturas estruturadas” e a busca pelas “estruturas estruturantes” do jornalismo (Bordieu). É uma alternativa do fazer jornalístico que vale a pena conferir, acompanhar e colaborar.
Não é possível ser cúmplice de um sistema que transforma o ser humano em peça, o jornalismo em linha de montagem e a academia em “uma máquina de moer sentimentos” (Demétrio). Para refletir Nietzsche, não se pode ser um super-homem quando se segue o rebanho. Afinal, quem faz a história sempre foram as ovelhas negras.
ALT nasce com a pretensão de ser um vinho fino a seletos paladares. ALT pede atenção e apreciação lenta para que, a cada gole, possa ser sentido, compreendido. O sommelier Bernardo lembra que “o vinho nos torna humildes, assim como nos torna melhores”.
Que não exista o novo… Quem disse que há somente dois lados numa moeda? Isso é para limitados. Misture cinema, literatura, pensamentos, sentimentos e jornalismo, e você terá o tempero do Gazeta ALT: jornalismo literário e cultural até o talo.




Excelente redaçao…aqui e no proprio caderno!
Parabens!
Visão literária
Literatura X Estupidez
Defronte ao inimigo com os corpos transpirados, a raiva transpõe-se na troca de olhares, como se no ato fosse possível uma destruição, cada qual expõe seu preparo no exibicionismo de potências, intimidando o adversário. A sineta alerta o início da batalha em que restará apenas um, sendo este idolatrado, mas para almejar a vitória, a força deve ser explorada constantemente. Dado o sinal, corpos entram em contatos com violência, impressionando os espectadores com cenas impactantes. Durante um tempo, eles conseguem manter seus golpes com autodefesa, mas de repente, um cede o combate, sendo arremessado ao chão, no qual se encontra ferido e cruelmente humilhado. Porém a proeza não significa a derrota por definitivo, mas sim uma ânsia de continuar eternamente no páreo. No segundo round, forças sobrenaturais surgem pondo o derrotado extremamente ensangüentado em pé e, mesmo debilitado avança em busca de justiça. Num momento de cansaço o até então campeão se vê na condição de fracassado, sendo esta a revanche do adversário.
No espaço de combate os rivais usam de artimanhas, sendo que o apaixonado pela arte expõe o efeito literário de se expressar tentando emocionar o adversário, que em contrapartida se defende verbalizando anedotas chulas, deixando evidente sua ignorância e hipocrisia. Pois difundir literatura é como adentrar em um ringue de luta, sendo este uma sala de aula, onde ambos procuram defender com justiça e suor sangrento suas concepções.
Pois a luta tornou-se diária tendo de um lado o educador e do outro o leigo, sendo visto assim literatura com bons e maus olhos.
Porém propagar literatura é semear cultura no meio social, pois ela é uma ferramenta que registra fatos históricos de uma humanidade e, devido à consciência de sua importância, cabe aos futuros educadores transpor aos alunos o conhecimento literário. Entretanto, com a literatura somos capazes de analisar criticamente uma obra , quando porventura nos vemos estampados em personagens fictícios transcritos no enredo.
“A literatura existe. Ela é lida, vendida, estudada. Ela ocupa prateleiras de bibliotecas, colunas de estatísticas, horários de aula. Fala-se dela nos jornais e na TV. Ela tem suas instituições, seus ritos, seus heróis, seus conflitos, suas exigências. Ela é vivida cotidianamente pelo homem civilizado e contemporâneo como uma experiência, específica, que não se assemelha a nenhuma outra.” (R. Escarpit, Le Littéraire et lê social).
O mundo da literatura, como o da linguagem, é o mundo do possível. Esta afirmação não tem nada de novo. Já Aristóteles, respondendo a Platão, dizia que, enquanto a história narrava o que realmente tinha acontecido, o que podia acontecer ficava por conta da literatura que tem sido objeto de investigação desde as origens da civilização ocidental, onde os registros feitos relatavam a existência de uma sociedade, que utilizava do meio literário para sua subsistência .
Com essa ressalva, a sugestão de que literatura é um tipo de escrita altamente valorizada é esclarecedora. Contudo, ela tem uma conseqüência bastante devastadora. Significa que podemos abandonar, de uma vez por todas, a ilusão de que a categoria “literatura” é “objetiva”, no sentido de ser eterna e imutável. Sendo assim, podemos considerar literatura tudo aquilo que cada um de nós considera literatura. Pois será que seria errado incluir num conceito amplo e aberto de literatura sendo as linhas que cada um rabisca em momentos especiais? Ou aquele conto que alguém escreveu e está guardado na gaveta? Por que excluir da literatura o poema que seu amigo fez para a namorada, no qual mostrou apenas para ela e mais ninguém? Por que não chamar de literatura as estórias de bruxas e bichos que de noite, à hora de dormir, nossas mães inventavam? Por que negar o nome de literatura aos poemas mimeografados que os jovens autores vendem como arte de rua? Será que são literatura os romances que a falta de oportunidade impediu que fossem publicados? As peças de teatro que, como dizia Fernando Pessoa, jamais encontrarão ouvidos de gente? Será que tudo isso é literatura? E se não é porque não é? Para uma coisa ser considerada literatura tem de ser escrita? Tem de ser editada? Tem de ser impressa em livro e vendida ao público?
Será então que tudo o que foi publicado em livro é literatura? Mesmo aquele romance de sacanagem, que todo mundo lê escondido e gosta? E os livros que nenhum professor manda ler, de que crítico fala, que jornais e revistas solenemente ignoram?
A resposta é simples. Tudo isso é , não é e pode ser que seja literatura. Depende do ponto de vista, do sentido que a palavra tem para cada pessoa, da situação na qual se discute o que é literatura.
“ É a literatura porta de um mundo autônomo que, nascendo com ela, não se desfaz na última página do livro, no último verso do poema, na última fala da representação. Permanece ricocheteando no leitor, incorporando como vivência, erigindo-se em marco do percurso de leitura de cada um.” (LAJOLO, Marisa, O que é literatura, 1982, p.43)
A literatura, por sua vez, foi e, enquanto existir, continuará sendo um denominador comum da experiência humana. Aqueles de nós que leram Cervantes, Shakespeare, Dante ou Tolstoi entendem uns aos outros e se sentem indivíduos da mesma espécie porque, nas obras desses escritores, aprenderam o que partilhamos com seres humanos, independentemente de posição social, geografia, situação financeira e período histórico. Ler boa literatura é ainda aprender o que e como somos em toda a nossa humanidade, com nossas ações, nossos sonhos e nossos fantasmas , tanto no espaço público como na privacidade de nossa consciência. Esse conhecimento se encontra apenas na literatura. Nem mesmo os outros ramos das ciências humanas a filosofia, a história ou as artes conseguiram preservar essa visão integradora e um discurso acessível ao leigo, pois também eles sucumbiram ao domínio da especialização.
Antonio Cândido diz que a literatura não corrompe nem edifica, mas humaniza em sentido profundo porque faz viver. E afirma:
“A literatura pode formar; mas não segundo a pedagogia oficial. [...], ela age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa com ela. Dado que a literatura ensina na medida em que atua com toda a sua gama, é artificial querer que ela funcione como os manuais de virtude e boa conduta. E a sociedade não pode senão escolher o que em cada momento lhe parece adaptado aos seus fins, pois mesmo as obras consideradas indispensáveis para a formação do moço trazem freqüentemente aquilo que as convenções desejariam banir [...]. É um dos meios por que o jovem entra em contato com realidades que se tenciona escamotear-lhe.”
O homem lúcido não pode permanecer quieto e resignado enquanto o seu país deixa que a literatura decaía e que os bons escritores sejam desprezados. É muito difícil fazer com que as pessoas compreendam a indignação impessoal que a decadência da literatura pode provocar em homens que compreendem o que isso implica e a que fim isso pode levar. Um povo que cresce habituado à má literatura é um povo que está em vias de perder o pulso de si próprio. Sendo assim, nos resta continuarmos eternamente na luta visando propagar a cultura indispensável.
“Se queremos evitar o desaparecimento dos romances – ou sua restrição ao sótão dos objetos inúteis e com isso o desaparecimento da própria fonte que estimula a imaginação e a insatisfação, que refina nossa sensibilidade e nos ensina a falar com eloqüência e precisão, que nos torna livres e nos garante uma vida mais rica e intensa, então devemos agir. Precisamos incitar à literatura aos que vêm depois de nós”.
(Sidnei de Oliveira – sheldom_dark@hotmail.com)